Depois do medo


O que tem depois do medo?

Perguntou o atleta antes da partida.

Não à torcida, nem ao treinador,

mas ao silêncio da própria vida.

A chuteira firme, o peito inquieto,

o olhar perdido na imensidão...

Pois o maior estádio do mundo

ainda cabe dentro de um coração.


O que o medo impede de viver?

Perguntou a vida, sem fazer ruído.

E o medo, vaidoso, respondeu:

— Tudo o que ainda não foi vivido.

Impede o abraço que não acontece,

a palavra presa na garganta,

o sonho que dorme cedo demais,

a esperança que já não canta.


Depois do medo, há o primeiro passo,

que ninguém consegue substituir.

Toda travessia começa pequena,

mas já é uma forma de partir.

O rio não pergunta à correnteza

se conseguirá chegar ao mar.

Ele apenas aprende, curva após curva,

que nascer é também atravessar.


O que tem depois do medo?

Talvez não exista uma única resposta.

Há quem encontre cicatrizes.

Há quem descubra uma nova porta.

Há quem perca. Há quem vença.

Mas existe uma verdade, enfim:

o medo nunca escreve o último verso,

quando a coragem decide o fim.


O que o medo impede de viver?

Os amores que não floresceram.

As canções que nunca ganharam voz.

Os poemas que nunca nasceram.

Impede o voo da ave inquieta,

o sorriso de quem quis tentar,

a criança que mora no adulto

e ainda sonha em recomeçar.


Agora já não faço perguntas.

Aprendi ouvindo o coração.

Depois do medo... existe caminho.

E o medo impede justamente isso: 

que descubramos que o caminho sempre esteve debaixo dos nossos pés.


Ernandes Dantas

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