Prefiro perder a razão


Prefiro perder a razão

se for ela que me pedir frieza,

se for ela que me exigir vencer

à custa da dignidade alheia.

 

A razão, quando caminha sozinha,

aprende rápido a calcular mortes,

a justificar guerras,

a chamar crueldade de estratégia.

 

Mas o humano — esse erro belo —

hesita, sente, recua,

e mesmo ferido escolhe não ferir.

 

Quando a lógica gritou vingança,

Gandhi desobedeceu com silêncio

e fez da paz uma força indomável.

 

Quando o mundo esperava ódio,

Mandela devolveu reconciliação

e quebrou correntes invisíveis

que nenhuma prisão havia conseguido.

 

Quando armas apontavam para o medo,

Martin sonhou.

E seu sonho atravessou gerações

como quem atravessa um rio

sem afogar a esperança.

 

E houve um homem,

sem exército, sem trono, sem espada,

que diante da morte escolheu o perdão

e ensinou que amar o inimigo

é o mais radical dos atos humanos.

 

A razão dizia: revida.

A história dizia: domina.

A humanidade, em voz baixa,

apenas sussurrou: permanece humano.

 

Porque toda guerra começa

quando alguém se julga dono da verdade.

E toda paz nasce

quando alguém aceita perder a razão

para não perder a alma.

 

Se parecer loucura escolher o cuidado

num mundo que normalizou a brutalidade,

aceito o rótulo sem defesa:

prefiro perder a razão

do que perder a humanidade.

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